Ghost: Do outro lado da vida

1 outubro, 2026 - 11h30

Hoje eu meio que sofri um “acidente”. Não foi bem um acidente grave, mas foi a primeira vez que estive em uma batida de trânsito. Não tem como descrever a sensação de estar completamente distraído e, do nada, um solavanco enorme te jogar de volta para a realidade. Foi exatamente isso: um grande chacoalhão que possivelmente afetou minha coluna. E apesar das dores (e do susto que demorou alguns longos minutos para passar), confesso que minha mente me levou para lugares muito mais aleatórios do que o normal. E, como um bom anfitrião, eu os abracei.

E se eu tiver morrido no acidente e não percebi?

Já parou para pensar se um dia você está andando normalmente pela rua e, subitamente, um ar-condicionado em um prédio qualquer cai justamente na sua cabeça? Seria um apagão? Sua alma continuaria andando pela rua, ignorando o fato de que carne e ossos se fundiram em algumas partes pelo impacto e pelo peso? Haveria dor? Anjos desceriam do céu com trombetas anunciando que a passagem destinada ao paraíso tinha sido solicitada de antemão?

Durante o almoço fiquei pensando: que prova eu teria de que morri hoje? Eu poderia muito bem estar vivendo a continuação da minha vida em coma, ou estar tão apegado à existência que nem notei que não estou mais encarnado. Sei que agora você pode estar pensando coisas como: “mas você viu pessoas pela rua” ou “se tivesse morrido, ninguém iria interagir com você”. Porém pense bem: são anos vivendo, o cérebro pode emular facilmente o toque, as falas, as reações e tudo mais de um dia comum (Já vivemos isso em sonhos vívidos). Então, que prova eu teria?

Sei que dependendo da crença temos respostas para essas dúvidas, mas permitindo a imaginação fluir tudo se torna possível. Lembrei inclusive do caso (não sei se real ou não) de um homem que viveu uma vida completa em coma. Se formou, teve filhos, trabalho, amigos... até que um dia olhou para um abajur e despertou, porque percebeu que algo no objeto estava estranho demais.

E tudo o que é estranho demais, para um maluco, vira um sinal.

Voltando para casa, peguei um Uber que era um grande de um gostoso, ouvindo jazz, carro novo, cheiroso, doces à venda, ar-condicionado ligado, direção impecável. O completo oposto do início do dia! Quando foi que se tornou possível pegar um Uber assim sem ser Black em pleno São Paulo? Quando?

Quem me diz que o motorista que prestou seu singelo serviço de me levar ao trabalho não era um Caronte me fazendo a passagem? Em pleno século XXI, com toda certeza a barca seria um carro. Quem me diz que o motorista que me trouxe para casa não era um anjo enviado para me dar um destino mais agradável depois de passar por um inferno na terra (ou inferno em espírito, ou no umbral, não sei). Até porque o dia não se encerrou nesse simples acidente: tudo o que poderia dar errado, deu! Mas isso é uma história pra outra hora.

Morto ou não, ao verme que primeiro roer as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas.

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